Mulheres Maduras: Entre Afetos e Erotismo
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Em um espaço de escuta, partilha e reflexão, a Roda de Conversas realizada no dia 25/03/26 trouxe à tona um tema tão delicado quanto necessário: "Mulheres Maduras: Entre Afetos e Erotismo". Conduzida por Maria Manuela Vaz Marujo, Professora Emérita da Universidade de Toronto, a palestra convidou os participantes a revisitar percepções, romper silêncios e reconhecer, com sensibilidade, a complexidade da experiência feminina ao longo do tempo. O texto a seguir apresenta o resumo dessa reflexão
Refletir sobre mulheres maduras é refletir sobre o tempo — não apenas sobre o tempo cronológico, mas sobre o tempo vivido, incorporado, inscrito no corpo e na memória. A maturidade feminina não pode ser compreendida como simples passagem de anos; ela constitui uma sedimentação de experiências, vínculos e transformações identitárias.
No imaginário social, a expressão “mulher madura” é frequentemente associada a experiência, sabedoria e resiliência. Contudo, raramente é vinculada a desejo e erotismo. Persiste, de modo implícito ou explícito, uma narrativa cultural que desloca a mulher madura para o campo exclusivo do cuidado, da maternidade prolongada, da avosidade e da memória familiar, ao mesmo tempo que tende a silenciar ou minimizar sua dimensão desejante.
Essa dissociação entre maturidade e erotismo revela um problema estrutural: a associação quase automática entre juventude, valor estético e legitimidade do desejo. Ao longo da vida, a mulher é socialmente reconhecida enquanto objeto de desejo; porém, à medida que envelhece, espera-se dela contenção, discrição e neutralidade sexual. Questionar esse pressuposto é fundamental para ampliar o entendimento da experiência feminina em sua complexidade.
A trajetória afetiva de uma mulher constitui elemento central dessa reflexão. A identidade constrói-se por meio dos afetos recebidos e oferecidos: no âmbito familiar, nas relações de amizade, nos vínculos amorosos, na maternidade e, posteriormente, na avosidade. Cada uma dessas etapas implica deslocamentos subjetivos e reconfigurações de papel.
Os primeiros afetos, geralmente oriundos da família de origem, moldam formas de vinculação e percepção de si. As amizades ampliam horizontes identitários e oferecem espaços de reconhecimento para além da estrutura familiar. Os relacionamentos amorosos, por sua vez, atravessam diferentes fases da vida — da intensidade juvenil à escolha consciente da maturidade — e revelam tanto potência quanto vulnerabilidade.
A maternidade, para muitas mulheres, representa uma inflexão significativa, ao deslocar o centro da experiência para o cuidado do outro. A avosidade, por sua vez, frequentemente inaugura uma modalidade de afeto menos ansiosa e mais contemplativa, marcada pela consciência do tempo e pela dimensão da transmissão simbólica.
Essas dinâmicas intergeracionais encontram expressão nas antologias Passos de nossos Avós, Avós: Raízes e Nós e Avós e Netos: Viagem de Afetos, que evidenciam a centralidade dos laços afetivos na constituição da memória coletiva e na construção da identidade feminina. Tais obras não se restringem à celebração da figura da avó; elas problematizam heranças emocionais, continuidades e reinvenções que atravessam gerações.
Entretanto, se os afetos permanecem e se transformam, o mesmo ocorre com o corpo. A maturidade implica alterações físicas e simbólicas, mas também pode representar ampliação de consciência e autonomia. O avanço da idade não elimina o desejo; ao contrário, pode conduzir a formas mais elaboradas e integradas de vivência da sexualidade.
Nesse contexto, a publicação da antologia Censurado insere-se como gesto afirmativo. A escrita erótica na maturidade constitui posicionamento crítico diante da invisibilização do corpo feminino envelhecido. O erotismo, entendido não como vulgaridade, mas como linguagem do desejo e expressão de vitalidade, reafirma a mulher madura como sujeito de prazer e não apenas como agente de cuidado.
Importa sublinhar que afeto e erotismo não são dimensões excludentes. A experiência feminina madura integra memória e pulsação, cuidado e desejo, transmissão e corporeidade. A tentativa de separar tais dimensões decorre mais de construções culturais restritivas do que da realidade vivida pelas mulheres.
A maturidade, portanto, não deve ser concebida como declínio ou apagamento, mas como processo de aprofundamento. Trata-se de um momento em que múltiplas identidades — filha, amiga, amante, mãe, avó, profissional, escritora — podem coexistir de forma mais integrada. A mulher madura não abandona sua condição desejante; ela a reinscreve em novas formas de consciência e autonomia.
Reconhecer essa complexidade é ampliar o debate sobre envelhecimento feminino e desafiar narrativas que limitam o corpo da mulher ao silêncio. A maturidade revela, mais do que diminui. Ela evidencia densidade histórica, força afetiva e permanência do desejo como expressão legítima de vida.
Registros do evento: imagens da Roda de Conversas realizada em 25/03.






























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