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Eis aí uma pergunta que merece uma reflexão criteriosa se
não quisermos enveredar por respostas superficiais e sem
conteúdo. Vamos lá!
Primeiro vamos exercitar um pouco a imaginação. Imagine-se
só, ou em um grupo, caminhando em média trinta quilômetros
por dia, sentindo cansaço, enchendo os pés de bolhas,
experimentando alguns momentos de compartilha e muitos
outros de solidão. Por outro lado imagine as belas
paisagens que terá a oportunidade de contemplar, as
deliciosas fontes nas quais saciará a sede, os momentos de
prazer onde dará boas risadas na companhia de outros
caminhantes.
Agora que você já imaginou isto, poderia responder a
pergunta “O que se ganha no Caminho?”.
O que se ganha no Caminho é um patrimônio só seu, agregado
à sua história e à sua personalidade. É um patrimônio
nitidamente individual, sobre o qual pode-se teorizar um
pouco, mas sem a pretensão de obter uma resposta
definitiva. O que se ganha no Caminho é um crescimento
pessoal, um amadurecimento, uma oportunidade de ver o mundo
de uma forma diferente daquela vista no dia a dia, quando
os afazeres, a família, os amigos e negócios acabam por
ocupar as mentes e corações.
Mas vamos lá! Como que se dá este crescimento? Em primeiro
lugar, depara-se com a imperiosa necessidade de tomar
urgentes decisões, de fazer escolhas, de arriscar. A cada
momento é preciso decidir solitariamente qual o próximo
passo, pois cada caminhante tem o seu próprio ritmo e é
quase que impossível haver um caminhar cadenciado de forma
que o grupo ande sempre junto. Tem-se que decidir, escolher
com quem quer compartilhar a caminhada, ou se quer andar
só. Arrisca-se a pegar trilhas erradas, a ter que pedir
ajuda a pessoas que não conhece e, principalmente, arriscar
a mostrar suas fraquezas, fragilidades, a tirar a fantasia
de “Super-Homem” ou “Mulher-Maravilha”.
Em segundo lugar, tem-se que aprender a lidar com as
frustrações. Não se frustra no Caminho? Mas é claro que se
frustra. E como! A cada momento as expectativas são
explodidas como se estivessem sendo dinamitadas por mísseis
de alto poder de fogo. Espera-se encontrar muito prazer,
mas o que na realidade acontece é que junto vem a dor. Dor
no corpo, nos pés, das bolhas, das quedas, sem contar a dor
da solidão, rejeição. Mas tem-se que lidar com estas
frustrações, visto que as alternativas existentes são
caminhar ou........caminhar; pois ficar chorando as
frustrações só resultará em atrasos na caminhada e no
acúmulo de maiores dores do que as já sentidas.
Em terceiro lugar, há o aprendizado quanto ao respeito aos
limites. Aos individuais e dos outros, aos limites físicos
e psicológicos. Faz-se necessário o rigoroso respeito aos
limites do corpo, pois se não houver este respeito,
certamente ocorrerá à interrupção da Caminhada por exaustão
ou fraturas. Há que se respeitar os limites psicológicos,
não permitindo a invasão de seu espaço pessoal para agradar
quem quer que seja, é necessário que se deixe bem claro
quem fará parte, e até onde, da Caminhada de cada um. Isto
é fácil? É claro que não, pois muitas vezes deixa-se
invadir para agradar o outro, para fazer o papel de
“bonzinho”, e o que se acaba ganhando é stress e mau humor.
Mas há o outro lado da moeda, que é a necessidade de
respeitar o limite dos outros, sob pena de se transformar
numa pessoa chata, que acaba por ser excluída do grupo.
Pessoas que gostem de conviver com “chatos” por longos
períodos não estão disponíveis por aí.
Em quarto lugar, deve-se exercitar uma comunicação clara e
objetiva. Ao caminhar depara-se com pessoas vindas dos mais
diversos locais, trazendo consigo as mais diversas
histórias. Pessoas oriundas de culturas diferentes e com
diferentes modos de se comunicar. Assim, se a comunicação
não for clara e objetiva, o terreno para maus entendidos e
desavenças está pronto para ser semeado. E o que é uma
comunicação clara? “Quero isto”, “Não quero isto”, “Isto eu
posso fazer”, “Isto eu não estou disposto a fazer”. Quando
se exercita este tipo de comunicação, sente-se entendido e
também entende o outro. Isto é agradável? Nem sempre, pois
desde criança acostuma-se a manipular o outro para que faça
aquilo que se quer, sem necessidade de se responsabilizar
por isto. Mas na Caminhada tem-se a grande oportunidade de
exercitar uma boa comunicação, até para se evitar situações
constrangedoras.
Em quinto lugar exercita-se o aprendizado do desapego.
Aprende a se livrar daquilo que é supérfluo, mesmo que se
goste muito. Isto se dá, principalmente, pela necessidade
de se livrar do peso excessivo da mochila. E como é difícil
livrar-se de algo que há tanto tempo é carregado, e com
tanto carinho. Mas é preciso que se livre, sob o risco de
sucumbir pelo elevado peso da carga, e não conseguir
alcançar o objetivo, que é uma caminhada leve, com a
chegada ao ponto final.
Sexto ganho muito importante é a necessidade de lidar com
as diferenças, tanto as suas como às dos demais. Explico:
no Caminho há a necessidade de conviver com as mais
diferentes pessoas e situações. E tem-se que conviver com
todos, pois cada um tem o seu objetivo e sua meta, além do
seu jeito próprio de ser no mundo e de nele expressar-se. E
urge que se conviva harmoniosamente, desenvolvendo um
profundo respeito pelo outro e pelo seu modo de ser. Se não
souber lidar com as diferenças é certo que terá problemas,
pois a qualquer momento encontrá alguém com quem precisa
conviver, nem que seja por um curto espaço de tempo. E com
suas diferenças? Estas então são as mais importantes, pois
estarão junto consigo nas vinte e quatro horas do dia.
Em sétimo lugar deve-se falar do maior de todos os
aprendizados: lidar com as perdas. A todo o momento
perde-se algo na Caminhada.Um objeto que desaparece, um sol
que é encoberto por uma nuvem, uma unha que cai, uma
oportunidade de tirar uma foto que é desperdiçada. E a
maior delas? Perder a companhia daqueles que compartilharam
as alegrias e tristezas do caminho. E na vida, como no
Caminho, as pessoas entram e saem a todo o momento. E isto
doe um bocado, pois se quer levar consigo os tesouros que
encontra, mas................como? Os tesouros devem ser
guardados no coração e é lá que devem ficar. Quando se
reencontrar com os companheiros de caminhada será ótimo,
mas quando distantes estiverem deve-se lembrar deles com
carinho e gratidão, pois a vida permitiu que juntos se
caminhasse por um pequeno trecho e também permite que
juntos estejam a cada dia através da lembrança.
Em oitavo lugar abre-se o espaço para a espontaneidade.
Libertos, mesmo que temporariamente, dos papéis sociais
(pais, professores, dirigentes, esposo/a, empregados,
patrões, etc), pode-se permitir ser visto por inteiro,
mostrando as fraquezas, as limitações, os talentos, as
habilidades. Vê-se que é possível dar risadas de si mesmo e
que o mundo não vai acabar por isto, que se pode cometer
erros e que nem por isto a caminhada vai acabar, pode-se
permitir a dar gostosas gargalhadas ou chorar de emoção por
ter superado um grande obstáculo e que isto não faz cair
pedaços. Pode-se experimentar contatar com aquela criança
que habita dentro de si, brincalhona e sensível, e passar
bons momentos em companhia das crianças internas dos outros
caminhantes.
Enfim, o que realmente ganha-se é a HUMILDADE. A humildade
adquirida ao deparar-se com o Grande Mistério que é a
natureza, com suas nuances e diferenças, as quais se
repetem no ser humano. Consegue-se perceber, finalmente, a
presença da força e da fragilidade dentro de cada coração,
e com esta vivência ocorre uma transformação interna no
caminhante acarretando uma mudança em sua visão de mundo. E
quando há uma mudança na visão de mundo, nos transformamos,
e o mundo se transforma conosco.
Vitor I. de Oliveira Thibes
Psicólogo e Caminhante
Em 10 de agosto de 2006
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